Domingo de sol e a volta do calor insuportável que só deu trégua ontem.
Acordamos com um programa: a Marcha das Mulheres na Av. Paulista. Começava às 10, chegamos às 11. Eis mais uma repetição, mas é a primeira vez que eu a registro assim, claramente.
Pra começar, não queria ir. Não tinha a menor vontade de ficar debaixo do sol quente agitando bandeiras, não é a minha praia. Faz muito tempo que não faço isso com convicção, acho que a única vez que fiz foi no impeachment do Collor. Não gosto de palavras de ordem, de carro de som, e principalmente, da sensação de que, cada vez mais, a diferença entre algumas manifestações e balcão de reclamações ao consumidor é a mesma. Você reclama, reclama, mas continua dando aval pros poderes estabelecidos.
Não estou aqui tirando sarro do trabalho alheio, certamente tinha muita gente de boa fé, com causas justas, e certamente há muita violência e absurdos contra a mulher que PRECISAM ser denunciados. O problema, pra mim, é a forma. E ficar perseguindo um carro de som esperando sua vez de falar, de “dar o recadinho em nome da minha organização”, e especialmente dando outro aval para outro microsisteminha de poderes que acaba se instaurando - o microfone.
Isso fora ouvir coisas como “lugar de imperialista é na frente do fuzil”, coisa mais vaga que a merda, contraditória, leviana. Estão tirando os nossos empregos! Aí me lembra o Brecht, na Ópera dos Três Vinténs: “O que é um assalto a banco, comparado à fundação de um banco? O que é um assassinato de um homem, comparado à contratação deste mesmo homem?” Ficar falando de emprego é dar munição pros filhos da puta que querem tomar conta. É tudo o que eles querem pra chantagear os governos, pra pegar MAIS dinheiro público, pra explorar MAIS GENTE, pra mudar MAIS as legislações trabalhistas. Pra não DEMITIR.
Enfim, o tema aqui é outro. Mas ouvindo aquela mesma musiquinha de sempre, lembrei do campeonato de interclasse na escola, em que a gente cantava: “É canja, é canja, é canja de galinha. Arranja outro time pra jogar na nossa linha!” Ou seja, é um time contra o outro. BANDOS, BANDOS, BANDOS.
E foi interessante lembrar da escola. Porque vi que tudo isso é uma repetição desde essa época: a COMPULSÃO DE PERTENCER.
Então foi assim foi a comédia de erros.
1) Eu estar lá. Não queria, mas fui. Sabe por que? Para não “ficar feio pra turma.”Só por isso. Pra ninguém (ou eu mesma) me acusar de individualista, de egoísta, afinal, não sou humanista?
2) Não avisar pro Dja que tinham me pedido pra gravar a coisa. Eu omiti mesmo, não adianta dizer que esqueci de falar, porque não quis criar conflito. Pensei: O pessoal vai estar lá, eu gravo, fotografo e vou embora. Bem, não foi o que aconteceu. Logo percebi que esse microfone não seria liberado logo, que teria que acompanhar a marcha na descida da Brigadeiro morro abaixo até sabe-se-lá onde, do lado do carro de som ouvindo aqueles gritos todos para não "peder a hora que elas iriam falar".
Aí, imagine o quadro: ele, puto, com o Pedro no colo, sentindo-se traído. E não tiro sua razão.
Foi com o Pedro me esperar lá na Fnac (sábia decisão), e eu já via a fumaça preta saindo da cabeça dele. Aí pergunta: se eu não queria estar lá, por que não fui embora?
Por quê?
Ah, porque já tinha me comprometido.
Por quê?
Altruísmo? Sacrifício? A causa? Não. PUTA PROBLEMA DE IMAGEM DE SI.
Pra ninguém (ou eu mesma) me acusar de individualista, de egoísta, de comodista. Afinal, não sou humanista?
Aí fiquei naquele lugar escroto: Maria-vai-com-as-outras. Fazendo o possível para “ser in”, seja lá qual seja a turma. Atropelando minha vontade, atropelando os outros, porque não conseguia não ceder à compulsão de agradar. Só quando, já lá na puta-que-o-pariu do deixa-que-eu -empurro, as meninas conseguiram falar quase à força, e eu fiz umas imagens lindinhas pra justificar toda a merda que tinha sido aquilo e a tensão aliviou: “agora já estou livre pra ir”, pensei.
E quem me prendia ali?
Aí, com as costas gritando, a lombar doendo e um gosto de contradição, lá fui eu tentar agradar à outra parte ferida. Por sorte, um lampejo de lucidez me tomou no caminho de volta (viva o autoconhecimento!) e não fiquei tentando justificar meus atos. Nem me culpando por isso. Só reconheci, para o Dja, que continuava puto, minha compulsão. Era o mínimo que podia fazer, mas o máximo que poderia fazer também.
E no caminho de volta, percebi que esse lugar é antigo. Vi na minha biografia. O que as amigas iriam pensar, o que meu pai iria pensar, o que minha mãe iria pensar... todas as fontes de afeto e reconhecimento, TODAS. Se eu contrariasse alguma, iria ser punida com O PIOR: o EXÍLIO.
Lembro da pressão que sentia pra transar com o namorado (as amigas) e pra não transar com o namorado (pais). Por sorte, o próprio não me enchia o saco com isso, e esperou paciente minha decisão. Mas lembro exatamente da sensação de NÃO ESTAR BEM EM LUGAR NENHUM. NÃO HAVIA COMO AGRADAR A TODOS, NEM COMO ME AGRADAR. Horrível, horrível.
É quase como “ser eu mesma era pecado”. OBEDIÊNCIA OU EXÍLIO. DESAMOR. REPROVAÇÃO. GONGO. PÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ – OUT.
Agradeço ao meu guia por essa compreensão. Agradeço o direito ao não.
Agradeço ter percebido que aí tem muita coisa que não me deixa avançar. “você é egoísta”é uma frase que reverbera desde remotos tempos. “todo mundo, menos eu” também.
Ter que ir sem querer ir, ou querer ir, sem poder ir.
Um desencontro total. Foi aí que perdi minha bússola. Negociei meu ser pelo afeto que pensava receber. que precisava receber
Importante, agora, é estar atento para não fazer isso com outro. Trocar carinho por obediência, medalha de honra ao mérito. Amar o outro na sua “desobediência às minhas expectativas”é um grande antídoto para isso. Respeitar as razões do outro, por mais que me pareçam fracas, fúteis, fugas, é outro grande exercício.
E perceber tudo isso já é um grande começo.
domingo, 8 de março de 2009
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