segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

7 dias pra não ser mais outra

Estou a esse tempo de encerrar tudo
estou sem tempo
estou fora do meu tempo
estou a tempo de mudar
estou sendo outra. Agora quero ser eu. mesmo sabendo que eu é ilusão
pelo menos quero uma ilusão menos ilusória, com mais gosto de verdade.

será que vou conseguir deixar de ser outra coisa que não seja eu? E os outros?
e as dúvidas eternas?
e as cobranças?
e?

passei um ano sendo algo que julguei necessário para que no futuro eu possa ser melhor
quero virar este virando o jogo
sendo algo melhor porque é mais necessário

21/12. Data palíndromo, data limite. Que eu seja, enfim.

sábado, 5 de dezembro de 2009

quem?

ARRUMANDO A CASA

Esse último semestre foi tenso.
até o encontro da Escola em Caucaia, a coisa ia corrida, mas proporcionada. Acho que os estudos davam a pitada que faltava pra gente aguentar de pé o tranco do momento.

resolvemos construir uma casa, encarando tudo o que envolvia essa escolha: tensões com pedreiros e etc, falta de $, imprevistos, barulho, sujeira. A construção de um lar, de uma casa que pudesse abrigar nossa família, amigos e sonhos, cercada de verde e amor, era nosso motor. Ainda é, na verdade.

no meio disso tudo, a gravidez. Uma bênção do momento, num momento tão difícil. Por causa dela, do Gabriel, tive dispensa das aulas da ESPM. Incrível, um dos presentes do semestre. O que já me faz ver que essas aulas não são parte do pacote "o que eu quero ser quando crescer".

De setembro pra cá, o ano pesou. Pesou o fato do Dja ter sido demitido, a gente com dívidas e obra começada. No fundo, foi bom. Ele pegou o filme, tem mais a ver com que quer da vida, com o caminho da felicidade dele. E conhecendo como as coisas funcionam, é bem provável que essas filmagens confrontassem com as aulas, e isso seria motivo de contradição.

Dizem que nada vem por acaso, e esse ano tá assim. nos últimos dias, eu andava com uma agonia rara, um sono, tristeza, melancolia, falta de vontade, um horror. um clima terrível dentro da minha própria casa, a casa pra onde já me mudei mesmo com obras, a casa que deveria conter o sonho. Ainda bem, percebi a tempo que o problema não era a casa, mas o entorno, os problemas com a obra interminável e os problemas intermináveis dos pedreiros. No Movimento eu passei por isso várias vezes, essa dificuldade em me conectar com o outro sem me tornar a esponja dos problemas do outro. Várias vezes senti esse "peso", e gradualmente fui trabalhando essa minha culpa. O pedreiro sumiu, eu dei graças a Deus, agora, nesse exato momento, tem outro trabalhando e é como se a casa estivesse vazia. ainda bem.

Eu preciso aprender a ouvir mais os meus sinais sem passar por cima. Nesse ano, foi muita invasão, muita. a tristeza que eu sinto é a distância que estou de quem sou, a obrigatoriedade auto-imposta de ficar fazendo coisas que não quero porque "assim tem que ser". Na última massagem/encontro com a Vilma, quando eu desmoronei de chorar, ela me sugeriu que eu listasse tudo o que tenho feito, pra ver o que tem a ver com o que quero. Vou seguir o conselho.


AULAS ESPM

Gosto das aulas de Design. Adorei dar o curso de roteiro. O doc da Social gostei no começo, mas depois pesou demais. se fosse pra orientar os alunos, seria ótimo, mas fazer tudo sozinha com estrutura amadora é pesado. As aulas de comunicação eu faço por $, e só. Graças aus guias, essa despensa aconteceu.

REFORMA

Não aguento mais nada. só quero ver pronto. mas ok, isso é provisório.

MATERNIDADE

Tem me gerado sérias contradições. eu me cobro muito. percebi que minha mãe é um anti-modelo, porque tenho completo pavor de me ver seguindo as escolhas dela - viver para os filhos, pra casa, pro "marido". Eu até acho que ela é feliz assim, era esse o devaneio dela. Mas eu nunca seria. Se eu larguei a casa pra vir pra SP, o que me move é outra coisa.

Esse é um ponto extremamente delicado agora, justo quando a casa, gravidez, filhos, pedem essa atenção. Eu me cobro de brincar e sair mais com o Pedro, sinto culpa de ver ele tão sozinho, mesmo brincando. Não acho justo, mas tb não consigo brincar por obrigação, aí já seria demais.

Tenho que descobrir um modelo novo, onde eu tenha mobilidade sem culpa, mas também não desatenda. Uma boa medida é sempre colocar uma hora para cada coisa, e garantir que no tempo em que eu estiver longe que ele esteja bem, se divertindo, em boas mãos, essas coisas.

Por mais estranho que pareça, essa revisão agora é importante. Acho que a pergunta não é “será que eu quero ser mãe?”, pq eu já sou e quero. Talvez seja “que tipo de mãe eu quero ser?”Ou, quem é a Claudia-mãe? Pq não tem modelo.

Na verdade, a grande dificuldade tem sido a proporção. Como essa obra tem tomado um tempo desproporcional, o resto fica totalmente truncado, “do jeito que dá”, e com cansaço, o que não ajuda em nada.

MOVIMENTO HUMANISTA

ESCOLA
Tudo de bom, tudo a ver. Espero não me deparar com dilemas em relação ao Gabriel, tipo um retiro de 1 semana com ele tendo 1 mês. Espero mesmo! Isso já tem gerado uma tensão, pra falar a verdade.

A tensão vem da imobilidade. Tem uma resistência interna, relacionada ao medo de sair no mundo (apesar do profundo desejo de sair no mundo), e agora uma externa, a coisa de se mover com filhos pequenos. Não é uma imobilidade, mas é uma dificuldade.

Em relação à primeira, é incrível. Agora mesmo me encontro num dilema monstruoso, se vou ou não a Punta de Vacas. Não sei se por resistência ou ato falho, deixei de comprar a passagem a Mendoza quando ela ainda era viável, e não dá mais. Sondei uma rota por Santiago, mas a quantidade de dificuldades me fez não refazer a reserva. Pra falar a verdade, tudo o que eu queria era subir num avião, de lá num ôpnibus, e que alguém me levasse. Essa opção eu até tinha, mas perdi porque achei que seria muito trampo. Agora estou vendo uma possibilidade final, a de ir a BA, de lá a Rosario, de Rosario seguir com o pessoal. Talvez seja mais longa, mas mais acolhedora. Sei lá. E no meio de tudo, meu pai “pedindo” pra não ir, oferecendo as vantagens de ir pra Franca, pra casa, pro conhecido. Me lembrei de quando eu ficava chateada quando uma festa aparecia, porque sabia que teria que enfrentar uma batalha para ir ou até não ir. Num dado momento, passei a preferir que as festas não existissem. Agora estou de frente para mais uma festa e para a corrente de desafios para que eu possa participar. E isso já contaminando a alegria de ir, e agora eu sabendo que só dependia de mim, mas com essa resist6encia internalizada. E vendo os preparativos de quem vai, e querendo ir, e achando que não devo, e querendo ir, e com medo de ir e gerar problemas, e com vontade de ir e rever meus amigos, rever os momentos incríveis que sempre passo entre eles, que sempre passo entre viagens, e me achando covarde se eu não for, e sem forças pra pensar em esquemas, e pedindo para que alguma solução caia do céu, e sentindo a contradição da repetição de não estar bem em lugar nenhum.

Porque parte do que eu sou está nesse conjunto, e nessas viagens já vivi alguns dos melhores momentos da minha vida. E ir prum SPA, pra Franca, pra onde for, nunca será a mesma coisa. E o medo de atropelar as coisas, as pessoas, as outras intenções?

Faz tempo que não vou a esses encontros pelo evento em si, mas pelas pessoas. Já passei da fase de achar que sempre será imperdível, que descerá uma nave espacial. Desde minha retomada com o MH, a graça está nos cafés, nas pequenas conversas, em momentos em que as amizades se aprofundam. E é isso o que faz valer a pena. Essa sensação de troca, de sair de casa, ir pro mundo, estar com pessoas que buscam outras coisas, ainda mais num lugar lindo.

Quer saber? Estou com uma puta vontade de ir. Estou contrariada de não ter visto antes a melhor forma de ir. Acho que por isso não desisti de vez, sigo falando com as pessoas, vendo maneiras, apesar do desgaste que isso tem me gerado. Levar ou não o Pedro? Acho que viver esse momento será especial pra ele Tb, apesar de limitador.

Acho que vou fazer o que tenho feito, acreditar que se eu tiver que ir, algo bom vai acontecer nesse sentido. Confiar que assim será e, se assim for, não deixar passar o momento. Essa viagem traduz uma das maiores contradições que carrego: a vontade de “cair no mundo” X o medo, parece que a aventura inevitavelmente resultará em algo ruim. Isso está muito bem gravado, e contamina bastante.

Sobre a outra imobilidade... ela vem da falta do desapego, também da preguiça. Estive revendo uns vídeos da minha infância, vi o quanto eu era magra e ágil. Não parava nunca. Algo a;i mudou, ou entortou. É algo a se pensar. Vai ser bom rever esses vídeos, talvez rever algo na minha essência que ficou lá pra trás.

MARCHA MUNDIAL

Tá no mesmo nível da obra, não vejo a hora de acabar. E, igual à obra, sei que em breve contemplarei à distância com orgulho e alegria, mas agora tudo o que vejo é problema, falta de $, gente cobrando (no caso da Marcha) e um pensamento freqüente de fuga.

É algo a se refletir. Sei que essa é uma tendência que eu tenho, quando as coisas chegam a determinado ponto, me pergunto o que estou fazendo ali e tenho vontade de sair correndo. Mas em alguns casos, eu realmente me pergunto não só o que estou fazendo ali, mas por que fui parar ali. Porque tem coisas que eu definitivamente NÃO QUERO FAZER, e preciso estar atenta a elas ANTES de entrar. Depois posso até largar o barco, mas isso gera tanto conflito que não vale a pena, prefiro segurar a onda até o final. E me massacro.

E esse é um bom momento pra pensar: o que eu não quero mais?

- Não quero mais nada que implique em PRODUÇÃO. Em ficar resolvendo pepinos, organizando pessoas, mobilizando, agitando, estando à frente. Estou completamente fatigada de tudo isso. E também não quero estar em alguma equipe em que alguém fique me passando bolas e cobrando coisas. Não estou num momento muito coletivo, e no momento o coletivo só me interessa para duas coisas: troca e diversão. Vamos fazer festa? Vamos! Vamos celebrar? Vamos! Vamos tomar um café, falar da vida? Vamos!

Vamos agitar, organizar, mobilizar, fazer? Passa amanhã.

Acho que isso de repente muda, mas no momento, esse é meu desejo. E a marcha, e o ativismo, e todo o resto definitivamente está na contramão.

- Não quero mais colocar a necessidade de ganhar dinheiro à frente das coisas importantes. Eventualmente (e espero que cada vez mais deixe de ser eventual e passe a ser a regra) eu ganho dinheiro com coisas importantes. Gostaria que essa fosse a minha meta a partir de agora. Então:

- Quero que o sentido da minha vida coincida com meu meio de vida. Não dá mais pra trabalhar só por $, nem a curto prazo.

- Não quero mais me meter em situações que me coloquem na armadilha de ter que abrir mão das coisas importantes para “apagar incêndios”. Isso serve tanto para compromissos econômicos a longo prazo (dívidas) quanto para projetos que eventualmente eu entre e depois tenha dificuldade de sair porque “as pessoas contam comigo”. Para mim, já é difícil largar as coisas, mesmo quando estão me fazendo mal, imagine se tem “perdas” envolvidas...


ORGANISMOS E ETC

O que me encaixa, no momento, é o Centro de Estudos. Mas vamos ver. Na verdade, no semestre que vem não quero fazer muita coisa.


AMIZADES

Sinto falta da convivência com rodas de amigos pra bater papo, intercambiar. Estou muito isolada. Esse ano de trabalho exigiu muito tempo sozinha, e o ano que vem, com o nascimento do Gabriel, também tende a um certo afastamento. Mas não quero isso. Não vejo a hora de chamar amigos pra virem aqui em casa, fazer fogueira, essas coisas.

Tb é importante mudar o papel em relação a algumas amizades. Na real, é um papel geral, mas em alguns casos a minha dificuldade em colocar limites tem me enchido o saco. Um certo papel de “legal”, de não falar quando a pessoa tá pesando ou sendo autoritária.

Não quero mais ficar no meio de nada. De discussões, de controvérsias, segurando a onda de gente dificinha. Cansei de ficar tensa pq o outro pode ficar climático. Sinceramente? Que cada um segure a sua onda, pq quem quer agradar todo mundo acaba mostrando o rabo.
Ando bem sem paciência pros ritos, pras reclamações, pros defeitos dos outros e pros meus tb. Quero me preservar das relações meio tensas, ruidosas, rituosas, cercadas de cuidados e não-me-toques, cercadas de suscetibilidades, por mais “legal”que seja (não sei como, mas algumas amizades são assim, e são legais. Mas agora tô fora). Gente do céu, eu tô muito intolerante! Uma sensação estranha, me sentindo só e querendo me isolar. Na real, acho que é um sentimento meio infantil por causa do cansaço: só quero o melhor das pessoas. Claro que a vida não é assim, mas só agora, só agora, é o que eu gostaria.
DJA & EU
A gente tem uma cumplicidade linda. Vamos fazer 5 anos de casamento, já estamos há 9 anos juntos. Uma casa, 2 filhos, e segue o desejo de seguir em frente.
Há alguns ajustes a fazer.
Quando a gente ficou junto, lembro que o que me chamou a atenção foi uma ligação espiritual forte. Eu estava num momento de busca, tinha rompido com a minha fonte espiritual até então – o MH – na verdade, tinha dado um tempo. Estava me lançando de volta na arte, na minha vida de verdade, na minha vocação. Estava saindo de mais uma história ilusória, onde eu tinha me machucado muito. Estava com o espírito aberto e o peito doído, e nesse momento a gente se encontrou. Era muito diferente do que eu tinha vivido até então, Tão diferente que parecia outra coisa. E era mesmo. Não tinha um lugar definido pra nossa relação, tanto que a gente nunca deu nome. E tudo o que aconteceu na nossa vida, desde aí, foi dessa forma.
Acho bacana resgatar o que me parece ser o espírito da nossa ligação. Porque hoje as tensões que temos – e queremos superar – parecem vir de fora, da invasão, no nosso cotidiano, de fantasmas passados, presentes e futuros. A gente se conheceu no mundo etéreo, das artes, do teatro, do espírito, mas quando resolvemos baixar pra terra, que era nosso grande ponto fraco (apesar de eu ser taurina), os problemas apareceram.
Como vamos nos bancar? Trabalhando. Trabalhar em que? Por quanto tempo?
E os sintomas da “vida adulta” chegaram. E eu me lancei no oposto, consegui a vaga na ESPM e desde então estou lá. E o Dja oscilando entre os sonhos dele e trabalhos temporários, onde ele nunca pára, mesmo que quisesse (como foi no Micael) porque o coração não está lá.
E é esse o delta onde os conflitos estacionam. Os conflitos desse novo momento de vida misturam-se na nossa relação.

O novo momento de vida pede que a gente se banque. Pra isso, ou vamos atrás do emprego, ou atrás de conseguir remuneração com nossa arte. Sim, somos artistas, os 2. Isso não faz de nós melhor que ninguém, porque essa afirmação não é traduz um adjetivo, mas uma necessidade. Nenhum de nós será feliz sem fazer arte, e isso é fato. E esse fato, para não causar infelicidade, pressupõe o seguinte: que possamos viver, nos bancar, disso.

Atualmente, eu não me banco. Meus objetivos econômicos foram plenamente atingidos, mas os pessoais não. Adoro dar aulas, isso me revigora, mas é eventual. Não sou professora, sou uma artista que orienta artistas, que tenta passar um pouco do caminho das pedras, sacar resistências, e é só. Não sou acadêmica, nem intelectual. Sou intuitiva, e minha vida é abrir as antenas e, com suor e intenção, captar os sinais que o mundo necessita. Sou da linhagem dos bardos, ou talvez queira ser, mas é aí onde me reconheço. E se esse parágrafo está escrito junto com minha relação com o Dja, é porque essa definição é o norte da nossa vida juntos. Porque todos os momentos felizes que lembro da gente são os que estávamos ou criando, ou viajando com o pessoal do MH, pensando num outro mundo, realizando essas coisas. E tenho percebido que a gente acaba separando “família”disso. E eu acabo de perceber que o Pedro e o Gabriel tem que entrar nesse nosso espaço sagrado, ou, na realidade, temos que ir todos pra lá. E essa casa tem que ser a manifestação física desse lugar, e não fonte de problemas, aborrecimentos, invasões e preocupação.

Acho que parte disso vem justamente da nossa dificuldade com a matéria. Claro que, sendo um terreno difícil, não seria trilhado sem conflitos. Era necessário passar por aí, senão seríamos os eternos adolescentes tardios, com pensamentos maduros e ações infantis. Mas como todo momento de conflito, ele pode confundir, desviar o curso. E mostrar facetas inesperadas de cada um, a ponto de, às vezes, a gente não se reconhecer.

O que agradeço muito nessa história é perceber que as bases que construímos são tão firmes que, quando essas coisas acontecem, é como se um canto profundo nos lembrasse de quem realmente somos, inclusive juntos. O mecanismo se faz presente com muita lucidez, e nos percebemos vítimas dele, não vítimas um do outro. Esse é o maior presente que temos. Isso é o que nos mantém atados, firmes, durante o canto da sereia. Porque na hora em que olhamos para o rosto da contradição estampado no rosto do outro, de alguma forma percebemos que aquilo não é a pessoa, mas o estado contraditório em que nos encontramos.

Ainda não resolvemos essa questão. Essa ponte ainda não foi totalmente cruzada. Antigamente, eu pensava que se a gente conseguisse se sustentar economicamente o problema já estaria resolvido. Mas não. Há limites internos a vencer para que consigamos chegar naquele lugar tão sonhado, em que a gente possa realmente estabelecer um cana; tão forte que passamos a ser porta-vozes de algo importante. E que a gente supere os desafios materiais para tornar isso realmente público. Uma vez realmente público, se realmente reverberar, os recursos chegarão. É isso o que eu acredito.

No meu caso, meus desafios são o medo e a preguiça.

Claro que há outros caminhos, mas esse é o único que me interessa. Outro dia, lendo a história da autora do Harry Potter, reconheci nela o meu devaneio. A idéia do livro surgiu num momento difícil, mas numa viagem de trem. O primeiro foi escrito em cafés, com a filha ainda pequena dormindo num carrinho. Ela foi de editora em editora até publicar. E o que aconteceu a partir daí foi conseqüência da força do universo que ela conseguiu gerar.

Eu achava que era um fenômeno de mídia. Depois de saber disso, resolvi ler os livros. Fiquei encantada. Ela virou uma referência. E nesse ano, revisando minhas agendas para um trabalho biográfico, me deparei com a seguinte declaração: “hoje acordei com uma intuição: serei escritora, vou escrever um Best seller”. Era algo assim, e dando o devido desconto para as pretensões adolescentes, está claro que esse sempre foi um forte devaneio. Ou uma forte intuição de caminho de vida.

Isso tem me feito pensar muito. Estou aqui agora, sentada há uma hora, e nem consigo imaginar fazer outra coisa. “tenho a casa para arrumar”, penso. Porque me propus a deixar a casa sempre em ordem, não quero repetir aqui a zona de outros lugares. Simplesmente porque gosto e preciso de um lugar harmônico para viver, onde eu não tropece em coisas. Isso é uma outra fonte de tensões que também entra nesse tópico Dja/família. Deixar uma casa arrumada pode me custar um dia inteiro de trabalho, se bobear. O que definitivamente não tem nada a ver comigo. Mas talvez uma meia hora diária reservada a isso possa ser suficiente.

Ah... a disciplina... fazer todo dia a mesma coisa economiza energia ou mecanifica a vida?
As quatro estações e o ritmo interno: uma das coisas mais urgentes que preciso fazer é respeitar meu ritmo. Certa vez, li em algum lugar que o verão, por ex, é uma estação de não se fazer muita coisa, só desfrutar. Hahahahahahha! Como assim, só desfrutar? Acho que eu não faço isso há anos. Mesmo passeando, eu tenho que trabalhar na produção da diversão, armar esquemas, criar roteiros, pra fazer render a produtividade do passeio. Um horror de constatar isso, mas é assim. Só nas viagens sem intenção clara estabelecida isso não acontece, e eu me surpreendo tendo uma epifania tomando um café com um amigo, coisa que poderia estar fazendo em qualquer lugar do planeta.

E aí volto ao conceito do espírito. E da minha ligação com o Dja. Estamos, os 2, em plena batalha, não entre nós, mas com nossas dificuldades. E, estando em batalha, acaba resvalando violência pelas bordas. Não sei por que, se pela tendência de se mover sozinho que os filhos mais velhos (que somos) tem, ou por um medo intuitivo de que isso desgaste a relação, não sei por que, mas nós resolvemos travar essa batalha em paralelo, mas sozinhos. Cada um no seu front. E acho que isso tem gerado nossos desencontros. Estamos, agora, feridos e solitários, cada um na sua trincheira e com seus inimigos. Às vezes, nos olhamos na solidariedade do soldado ferido, às vezes confundimos um ao outro com os próprios inimigos. Mas isso tão tá legal.

O momento deve, sim, ser enfrentado. Ele é difícil. Se não fosse, repito, teríamos nos encontrado em outra situação, talvez cada um já morando em sua própria casa, com seus trabalhos estabelecidos, mas essa seria outra história. O fato é que estamos cruzando esse rio, e talvez a guerra não seja a única forma de travessia. Certamente não será zen, mas não precisa ser tão doído.

E a família entra nessa também. Estando nós 2 em nossas trincheiras, o Pedro fica no mundo dele. Tentando não me culpar, e me consolando no fato de a criança sobreviver bem a isso, também não acho que é o ideal. Uma das cenas mais impressionantes que já vivi com ele aconteceu há pouco tempo. Num desses dias de batalha, num dia em que o Dja e eu, depois de termos nos machucado mutuamente, chorávamos no sofá, o Pedro simplesmente colocou uma mão na cabeça de cada um. Como ele não fala português, definiu num gesto simples se amparo, seu desejo, e sei lá mais o que que tenha passado na cabecinha dele naquele momento. Juro que essa imagem vai balisar muita coisa pra mim a partir desse dia. Ela me emociona, foi um fio terra gigantesco. Não quero falar muito sobre isso, porque a imagem se basta. Naquele momento, o Pedro foi um anjo. Mas ele é uma criança, e tem que ter esse direito de ser uma criança, com tudo o que uma criança trás.

É incrível como tem tanta coisa no pacote “Dja & eu”. Nossa relação com a vida, com os filhos, com a casa, com nossa ação no mundo. E sobre isso, é um capítulo à parte. Sei que somos melhores estando “pra fora”. Mas nesse momento, estamos tb num reajuste de qual é realmente essa ação.

Fico muito feliz porque, apesar de tudo isso, a gente ainda mantém uma ligação muito forte. E ter passado por isso, ou estar passando, é um alívio também, na verdade é uma grande prova de que estamos juntos não apenas nas condições ideais de temperatura e pressão. Agora estamos em altas temperaturas, alta pressão, e apesar de tudo o desejo de estar junto existe. Eu só acho, realmente, que esse estado de guerra às vezes tem suas razões externas, mas também pode virar um hábito. Como soldados que, no fim da guerra, não sabem mais o que fazer da vida, para onde ir, e ficam caçando briga por aí. E agora, sinceramente, sinto que é o momento de mudar a chave, se cuidar, nos cuidarmos mutuamente, retornar às nossas origens do cuidar. “tem que cuidar”foi uma frase que ouvi dele lá no nosso comecinho, e que entrou no meu coração com tanta suavidade e força que me trouxe até aqui.

Sim, há muito amor. Mas estamos feridos e sozinhos, e precisamos nos cuidar. Pra isso, além de conseguir dar um tempo de nossos inimigos pessoais, temos que encarar um comum: o condicionamento, o hábito de estar fazendo as coisas dessa forma.

O RITMO PESSOAL, O PRAZER E O DESCANSO
Isso tudo foi escrito em momentos diferentes, em dias diferentes, com climas diferentes. Sinto, agora, um grande esvaziamento. E uma forte compreensão que tenho que realmente me conectar ao meu ritmo interno sem culpa, especialmente porque ele não é o ritmo das grandes cidades. Talvez viver em SP seja uma grande compensação disso. Mas não pode ser um presídio.
Acho que eu encaro esse ritmo com preconceito. Me comparo muito a todas as pessoas hiperativas e me culpo por não ser assim. Tenho muito medo de me acomodar, então me lanço em coisas enormes, complexas e trabalhosas, lá no fundo contrariada, mas dizendo”vamos! Vamos!”. Agora chega, né?
Outra coisa engraçada: há um tempo, quando eu enveredava por outras buscas, acabei indo em algumas “sessões espíritas”, em que um amigo nosso, o Irineu, recebia uma entidade: o Seu Zé Pilintra. Naquele momento, o seu Zé foi essencial. E entre as várias coisas bacanas que ele falou – seja lá quem for ele, e isso não me importa – uma delas foi:

- você conhece pilão?
- Pilão? Aquele, de socar coisas?
- é. Você prefere a parte de cima ou a parte de baixo?
- a de cima (não sei pq respondi isso)
- é a que faz alguma coisa, né? Não a que fica embaixo, só apoiando...

Não precisa falar mais nada, né?
O mais engraçado é que, no meio de toda a mudança que veio de franca, minha mãe me mandou um pilão. Como eu estava em pleno momento “joga fora no lixo”, minha primeira reação foi de contrariedade, porque é um treco grande, pesado e “inútil”. Coloquei o pilão num canto, e o canto gostou dele. E eu vou deixar ele ali, pra me lembrar desse diálogo com o seu Zé.

E por último:

- não quero mais estar atada à casa grande.

Preciso resolver esse medo. Preciso parar de buscar carrascos, buscar senhores. Ainda que sejam amigos – o que é pior.

Acho que essa passagem do Luís (pedreiro) aqui em casa me trouxe isso. Talvez por essa razão tenha me afetado tanto. No plano “visível” era ele um pedreiro, no ano de 2009, trabalhando pra um casal. Nos planos “invisíveis”, era ele o escravo submetido aos bons senhores, oscilando entre a gratidão excessiva e o ódio. Mendigando afeto em troca da lealdade. E terminando em um buraco cercado de lama, sem ninguém pra culpar de verdade dessa vez, a não ser ele próprio.
É como eu me coloco, também, às vezes. Cavo buracos que não consigo fechar, me enterro neles. Finjo uma submissão por medo de seguir sozinha. Me ressinto com os que conseguem. Odeio o carrasco, mesmo que ele não exista, mas perco muito tempo preparando as costas para a próxima chibatada. Sonho com os quilombos, mas para mim ressoam como um sonho distante, porque com os patrões o pão de cada dia tá garantido, e pronto. Me degrado por esse pensamento, sou escrava dessa compulsão.

É como um arquétipo vivido por tantos em vida real. É uma armadilha da qual preciso me libertar.